Tendal da Lapa: da cultura ao descaso

Há 22 anos o Espaço Cultural Tendal da Lapa, localizado na região Oeste da cidade de São Paulo, promove 24 oficinas culturais gratuitas para a população, entre elas aulas de música, teatro, dança e artes plásticas. Atualmente o Tendal é a maior casa de cultura da cidade, ocupando aproximadamente 7.400 m² de um prédio histórico da região. A prefeitura de São Paulo é detentora do espaço.
Observando que o Tendal não era suficientemente divulgado, nos encaminhamos ao local com a intenção de obter informações sobre as oficinas e divulgar para a região onde ela é localizada. Fomos surpreendidas pelo fato da coordenação estar ausente em um dia de trabalho, no meio do expediente. “O horário do coordenador é a partir das 10:00”, nos informou a segurança do local, “mas umas 13:00 horas é garantido que ele vem”.
Esperamos até as 15:00 apenas para descobrir que ele não viria mais. Indagamos sobre seus horários durante a semana e notamos que ele não costuma aparecer com regularidade. Voltamos em um outro dia, no horário indicado pela segurança, no qual ela tinha certeza que ele estaria trabalhando. O coordenador, Marcos Ozzetti, no entanto, não quis responder a perguntas, alegando estar muito ocupado com e-mails. Conseguimos marcar uma reunião com Marcos, em um dia e horário de sua escolha, mas ele não apareceu. Em outros momentos ainda de insistência, não conseguimos falar com ele. Do que ele fugia?
O espaço do Tendal da Lapa, mesmo após mais de duas décadas de história, ainda passa por muitas dificuldades, como a falta de recursos para os alunos. Por isso, de acordo com Alessandro Cristiano Bolinda, que faz aula de teatro há um ano no local, cada grupo deve realizar uma contribuição para o espaço ocupado: “Tem grupos que colocam os panos, outros que colocaram a madeira no chão, entre outros. O grupo de teatro foi o responsável pelas lâmpadas dos banheiros”.
Como a entrada não é chamativa, a maioria das pessoas que entra pela Rua Guaicurus não está interessada nas atividades oferecidas e nem sabem o que o lugar contém, entram apenas para se informarem da localização do Poupatempo. Enquanto esperávamos em vão pela coordenação do Tendal, cinco pessoas, em um período de 30 minutos, nos fizeram a mesma pergunta: “É aqui que é o Poupa-tempo?”. Não demorou muito para aprendermos a dar instruções sobre como chegar lá.
Mas não é apenas na entrada que o Tendal da Lapa é descuidado. Passando pelo portão principal as pessoas já conseguem observar muros pichados e jardins mal cuidados. Adentrando um pouco mais, encontram-se entulhos empilhados no chão sujo, banheiros sem travas na porta (ou até mesmo sem portas) e uma folha rasgada de papel sulfite ao lado do bebedouro com os dizeres: “Recomendamos aos frequentadores das oficinas e aos integrantes de grupos que ensaiam no Tendais, que tragam seus copos ou garrafinhas próprias , devido à insuficiência de copos para abastecer os bebedouros”.
Além da falta de infraestrutura básica para abrigar aqueles que o frequentam, o Tendal sofre com a falta de divulgação. Os funcionários da Lanchonete Princesa Romana, por exemplo, localizada a um quarteirão do local, na esquina da Rua Roma com a Rua Catão, desconhecem o lugar.
Para a divulgação, a Prefeitura da cidade de São Paulo conta apenas com o blog tendaldalapa.blogspot.com.br. João Edson, professor de Samba Rock, diz: “Eu sou funcionário da Prefeitura, mas os outros funcionários não sabem que existe esse espaço. Convidamos nossos amigos para fazer aula, mas nenhum conhece”.
Gisele Cristiane Martins, professora de Artes Plásticas do Tendal, também comenta sobre o assunto: “Tem muitos alunos aqui, então as pessoas ficam sabendo através do boca a boca. Os alunos que passam o Tendal pra frente. Eu tenho aluno de longe, tenho aluno da Penha, do Jardim Imperador, da Vila Formosa, de várias regiões, que ficaram sabendo porque alguém fez aula e indicou”.
Porém, mesmo com a falta de infraestrutura adequada e divulgação, os que participam das aulas, gostam muito do lugar.
De acordo com João Edson, todos os professores são voluntários: “Eu sou funcionário da Prefeitura, mas não tem nada a ver. A gente faz porque a gente gosta. Aqui tudo é de graça. A gente gosta, faz muitas amizades. Se você faz aula é porque tem algum problema, seja de saúde, financeiro, pessoal, aqui você tem duas horas de distração”.
Aos finais de semana, uma atividade se destaca no Tendal: a aula de informática. Frequentado por, na maioria, idosos, o curso visa ensinar as pessoas a usarem o computador. A aluna Maria de Fátima Pereira (61), diz estar aprendendo muito com essas aulas: “Eu sou secretária de dentista, então preciso usar o computador. A Tamires (professora) ajuda muito a gente, ela tem muita paciência. Cada dia a gente aprende uma coisinha nova”.
Além de ser a atividade mais concorrida (com vagas que acabam em menos de duas horas), a aula de informática tem outra particularidade, é a única que está vinculada à Prefeitura, sendo parte de outro órgão público que oferece ações sociais como essa. A professora de informática é funcionária da prefeitura, mas nem ela e os computadores não estão ligados ao Tendal, que só permite que a sala seja utilizada.
Mesmo esse curso acontecendo aos sábados, os dias úteis são os que reúnem a maior parte dos alunos que, de acordo com João Edson, frequentam o Tendal no período da noite: “O Tendal sempre foi forte. Sempre teve muita gente aqui, mas depende muito do horário. Durante a semana, das 18h às 22h o lugar fica superlotado”.
A falta de recursos não impediu que dezenas de pessoas, ainda que muitas delas passem por dificuldades, tocassem o Tendal da Lapa para frente. A boa vontade dos voluntários e alunos fez dessa casa de cultura um segundo lar para diversos moradores da cidade de São Paulo.

obs: O texto foi escrito em conjunto com Priscila Zucas.

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