Quando é que vamos cobrar competência política dos candidatos?

O que não se vê no Brasil é o que Rousseau destacou como distinção entre a vida privada de um “soberano” e a sua vida pública: “trata-se portanto de distinguir bem os respectivos direitos dos cidadãos e do soberano, e os deveres que os primeiros têm de observar como súditos, do direito natural de que devem gozar como homens”.
É comum observar, nesse país, políticos que se esquecem de seus deveres e gozam de demasiados direitos. As generosas recompensas de um cargo público são justificadas pela tamanha responsabilidade que esse representa; a responsabilidade, porém, se transforma em “mostrar serviço” em um show, uma competição por popularidade.
O erro começa no motivo pelo qual se candidatam os homens e mulheres do universo político: os benefícios. O ganancioso não conhece limite e, no Brasil, a política é o mais fácil meio pelo qual ele vai conseguir alcançar seus objetivos, cada vez mais audaciosos. Há pouca fiscalização, por parte do povo, se as responsabilidades de um servidor público estão sendo cumpridas. Ora, se o povo o escolhe para representar os interesses do coletivo, fica como sua responsabilidade verificar se é com isso mesmo que o ser público está usando seu tempo. E esse sujeito, por sua vez, deveria reportar suas atividades regularmente, para que o povo compreenda que as faz em prol do mesmo.
Não se pode considerar que um indivíduo que ascende a um cargo público em função de sua ganância pessoal cumprirá, por boa vontade, os deveres profissionais do cargo. Ainda que haja uma fiscalização, um sujeito como esse sempre encontrará maneiras de enganá-la, e colegas como ele que sirvam como cúmplices.
Outro erro é a forma como se candidatam. Se o único pré-requisito para que se torne um ser político, além das conexões certas, é o dinheiro para sua campanha, como se espera que qualquer um deles seja competente? Se há testes e etapas para que se forme médicos, advogados, engenheiros e até secretárias, por que não políticos?
Por que não uma formação política, não para que aprendam a enganar em seus discursos, ou a formar as conexões mais vantajosas, mas para que entendam a importância e a responsabilidade de cada cargo público, as incertezas políticas e como tomar decisões difíceis que beneficiem a nação, para que decidam seguir esse caminho pela nobreza e o respeito e não pela ganância.
Os benefícios dos cargos públicos, inclusive os salários, não devem estar muito acima de outros profissionais de alta responsabilidade que também lutaram para alcançar sua formação. Um médico é responsável pala saúde do povo; um engenheiro civil, pelo abrigo das casas e acessibilidade das estradas; o político, por sua vez, é responsável pela administração da ordem. Ele tem os mesmos direitos do povo, e as responsabilidades de sua profissão. Somente assim ele fará o que é melhor para a população, considerando a si próprio, integrante dela.